IARP – Instituto de Alergia de Ribeirao Preto

Vacinas

Atualmente alguns pais sentem-se inseguros com relação ao uso de vacinas em crianças, mas esta é a única forma comprovadamente eficaz de evitar algumas doenças graves que podem deixar sequelas por toda a vida.

Hoje em dia vemos a escalada de um movimento que tem por objetivo desestimular a utilização em massa de vacinas com o suposto argumento de que vacinas são perigosas, que causam efeitos colaterais ou mesmo doenças. Tudo baseado em falsas informações e sem nenhuma confirmação científica.

O que são as vacinas, afinal de contas?

Vacinas são preparações biológicas que têm a função de estimular o sistema imunológico a produzir naturalmente defesas contra infecções virais ou bacterianas para que caso a pessoa seja exposta ao microrganismo patogênico, tenha defesa específica para aquele determinado agente que foi vacinado, impedindo assim que desenvolva as formas graves daquela doença.

Na verdade, o que acontece é que a vacina se vale de uma tecnologia baseada no conhecimento que temos de como nosso sistema imunológico funciona para, de maneira segura e confiável, levarmos uma vantagem no combate à infecções potencialmente perigosas e que ameaçam nossas vidas. Para isso utilizamos o que chamamos de antígenos específicos dos diferentes agentes causadores das doenças para criar um tipo de memória imunológica de longo prazo.

Para ficar mais claro, precisamos tratar de como o sistema de defesa de nosso organismo funciona. Se seu interesse for somente compreender como funcionam as vacinas, pode avançar para o “sistema imune adquirido” mais abaixo.

O sistema imune inato do bebê

O nascimento é um momento de mudanças radicais na vida de todos nós. Enfrentemos a temperatura do mundo, inflamos nossos pulmões com ar, passamos a sentir cheiros, gostos, a ver e ouvir, o tato deixa de ser o contato com um líquido morno e reconfortante para mão, banhos, roupas. Além disso, saímos de um ambiente estéril e seguro para um ambiente repleto de microrganismos, plantas e animais. Estas mudanças repentinas nos expõem a uma miríade incalculável de riscos em potencial. Apesar disso, sobrevivemos, crescemos e temos nossos filhos, ou seja, algo está funcionando muito bem a ponto de nos proteger dos perigos.

A primeira frente de proteção contra perigos em potencial não está escondida no interior de nossos corpos, pelo contrário, está amplamente à vista. Pele, lágrimas, saliva, o ácido do estômago entre outros, formas barreiras mecânicas que auxiliam na proteção.

Entretanto, a proteção conferida pelas barreiras físicas é limitada e nesta etapa da vida o sistema imune não está desenvolvido e é capaz de nos proteger somente contra alguns tipos de ameaças. Ainda bem que podemos contar com uma ajudinha extra da mãe-natureza que nos presenteou com um tipo de “doação de imunidade” que acontece entre mãe e bebê, em parte ainda durante a gravidez, mas de maneira mais robusta durante a amamentação (imunização passiva natural).

Na amamentação a mãe transfere para o bebê um tipo de anticorpos (IgA) que irá agir nas superfícies mucosas do trato digestivo, boca, garganta, esôfago, estômago e intestinos, promovendo proteção contra a entrada de potenciais agentes patogênicos. Além disso, a mãe é responsável pela colonização e formação da microbiota inicial do bebê (conjunto de microrganismos bons que fazem parte de nós) que tem inúmeras funções durante a vida e um papel importante na prevenção contra o desenvolvimento de alergias na infância e no adulto.

Em adição a isto, o bebê conta com um sistema de células de proteção que tem sua ação de maneira independente da presença de anticorpos formado por fagócitos, células natural killer, células apresentadoras de antígeno, substâncias inflamatórias e o sistema complemento. Todos esses nomes só para dizer que há sim mecanismos de defesa que vão se modificando desde o nascimento até por volta dos três meses de idade, quando aí entra na história a imunidade adquirida.

Sistema imune adquirido do bebê

É neste momento que o tema deste texto passa a fazer mais sentido. Quando falamos do sistema inato, tratamos de um assunto não relacionado à vacinação porque este sistema não cria memória, é um sistema “genérico” de fundamental importância para a vida, mas com um repertório limitado de frentes de ataque.

Como o próprio nome designa, o sistema imune adquirido é algo que se adquire ao longo do tempo e ele depende de exposições prévias aos microrganismos. Mas o que essa exposição prévia modifica no corpo que garante a proteção, a imunidade?

Inicialmente, vamos dar nomes a alguns atores importantes nesta peça:​

Antígenos

assim como nós somos capazes de reconhecer uma pessoa familiar por apenas algumas partes delas como a voz ou às vezes por pequenos detalhes como o jeito do cabelo, uma tatuagem ou o formato das mãos, o sistema imune também tem a capacidade de reconhecer os microrganismos que entram em contato conosco a partir de partes desses organismos, não necessariamente o todo. Esses detalhes reconhecíveis são os antígenos, em sua maioria são proteínas características daquele grupo particular de microrganismos.

Anticorpos

são parte do mecanismo de reconhecimento do sistema imune que acabamos de descrever. São os anticorpos que de fato se ligam aos antígenos dos microrganismos, marcando-os como estranhos ao corpo e sinalizando para sua destruição.

Macrófago

esta célula é capaz de encontrar, “engolir” (fagocitar) e digerir microrganismos e células mortas. Neste processo os macrófagos usam partes dos microrganismos digeridos para alertar ao sistema imune da presença de um organismo estranho ao corpo. Este processo se chama apresentação de antígeno e é o paralelo com o exemplo que demos sobre como podemos reconhecer alguém por uma característica particular ao invés do todo.

Linfócito B

é um tipo de célula do sangue do grupo das células brancas e que tem como principal função o reconhecimento de antígenos e a produção anticorpos que servirão de marcadores para a eliminação da ameaça. Além disso, quando um linfócito B é estimulado por um antígeno novo, algumas células se “imortalizam” e mantém a informação sobre este novo antígeno, gerando memória imunológica.

Linfócito T

outro tipo de célula branca do sangue que tem por função auxiliar o Linfócito B no reconhecimento dos antígenos, controlar a duração da resposta imunológica frente uma ameaça e atacar e destruir células do corpo que estiverem infectadas por um agente patogênico.

Com isso em mente, sempre que o corpo é exposto pela primeira vez a um microrganismo que não deveria estar ali (um microrganismo que não seja parte da flora bacteriana normal do corpo), inicia-se um processo que poderá levar vários dias até que seja capaz de combater eficientemente a infecção. Entretanto, como vivemos em um mundo repleto de vírus, fungos e bactérias por todos os lados, se a cada vez que entrássemos em contato com algo nosso corpo fosse levar dias, semanas para se defender, estaríamos todos mortos.

Como isso não acontece, isso significa que há algum mecanismo por trás de nosso sistema de defesa que promove agilidade e eficiência na resposta imune. É aqui que entra a memória imunológica. Essa memória se forma sempre que um novo antígeno é reconhecido pelo sistema imune e deflagra uma resposta de combate à suposta ameaça. Quando a ameaça é removida, não há mais a necessidade de o sistema imune continuar ativamente produzindo células e anticorpos específicos para lutar contra aquele microrganismo.

Ao invés disso, ele mantém somente um pequeno número de células sensíveis aos novos antígenos na forma de células “imortais” que ficam de prontidão para iniciarem a produção maciça de linfócitos B e T ativados e anticorpos em questão de horas ao invés de dias, combatendo eficientemente a infecção antes que ela ganhe força.

Levando isso em consideração, o processo de imunização (desenvolvimento de imunidade frente um patógeno) do qual tiramos vantagem na vacinação nada mais é do que um evento natural do nosso corpo sempre que enfrenta um novo desafio com um corpo estranho. Desta forma podemos dizer que uma forma de se imunizar contra uma doença mais “naturalmente” seria pegar a doença, então se alguém quiser se imunizar contra a caxumba, deveria pegar caxumba.

Essa ideia parece pouco lógica já que o objetivo da vacinação é evitar o contágio com doenças perigosas, mas como fazer para estimular a resposta imunológica natural do corpo para criação de memória contra um microrganismo perigoso sem o contágio pelo microrganismo? Aí reside o conhecimento científico e o desenvolvimento de estratégias seguras e eficazes.

Uma breve história da descoberta das vacinas

O ano é 1796, a Inglaterra sofria com a varíola, doença que assolava a humanidade desde os tempos mais remotos. O médico Edward Jenner era um cientista que tinha por vocação a observação paciente e meticulosa da natureza, com a mente aberta e sem se deixar influenciar por conceitos estabelecidos como se escritos em pedras.

Ele soubera de relatos de mulheres que trabalhavam na ordenha do leite de vacas e que aparentemente eram imunes ao desenvolvimento de varíola e resolveu observar. Ele notou que algumas dessas mulheres apresentavam pequenas lesões nas mãos, nada grave, que se assemelhavam àquelas da varíola. Já se conhecia que outros animais também sofriam com doenças com sintomas semelhantes, entre eles o gado e galinhas.

Com essa observação Jenner hipotetizou que a exposição dessas mulheres a um tipo de varíola bovina de alguma forma as protegia contra a varíola humana e resolveu testar sua hipótese. Para isso, em uma das atitudes mais antiéticas da história da ciência média, Jenner coletou material de uma dessas feridas já em cicatrização de uma mulher e injetou no braço do filho de oito anos do jardineiro.

O menino ficou levemente adoentado por alguns dias, com febre leve e desconforto, mas em pouco tempo estava recuperado e havia voltado à normalidade. Dois meses depois, Jenner resolve que é hora de testar sua hipótese em definitivo. Ele coleta material de uma ferida fresca de varíola humana e injeta novamente no menino, que reage como se nada houvesse acontecido, não apresenta nenhuma manifestação da doença e sai ileso deste experimento bizarro.

Hoje sabemos que há relatos muito mais antigos da utilização de técnicas parecidas para a imunização em outros povos, mas essa é a história que ficou mundialmente conhecida como a descoberta das vacinas e ilustra bem como o processo de imunização não depende exatamente da exposição do indivíduo ao microrganismo patogênico em si para a aquisição de memória imunológica.

Do que são feitas as vacinas?

As vacinas são preparados especiais que se utilizam de partes ou do todo dos microrganismos causadores das doenças, entretanto sem que haja o risco de contágio. Para isso a ciência médica utiliza pelo menos três tipos de técnicas para sua fabricação.

Subunidades dos Patógenos

Como já ilustramos anteriormente, não precisamos ver o todo de uma pessoa conhecida para sabermos de quem se trata e o sistema imune não precisa “ver” o microrganismo inteiro para o reconhecer, assim, uma das estratégias utilizadas para a fabricação de vacinas eficientes na geração de memória imunológica e que apresenta risco virtualmente zero é a fragmentação dos microrganismos patogênicos em seus principais antígenos.

Essa mistura de antígenos é inoculada na pessoa e isso basta para o sistema imune ser ativado e se preparar para a eventualidade de encontrar com o microrganismo verdadeiro, vivo e perigoso.

Nestes casos fornecemos ao sistema imune os antígenos purificados e este tipo de vacina não costuma necessitar de reforço.

Vacinas Inativadas

Em alguns casos o tipo de reconhecimento que o sistema imune faz dos agentes patogênicos depende da estrutura tridimensional do microrganismo e com isso a técnica de fragmentação em subunidades não é eficiente para a geração de imunidade. Ao invés disso, podemos submeter o microrganismo a um processo que o mata e o inoculado é preparado a partir do vírus ou bactéria inteiros, mas mortos.

Nestes casos o sistema imune tem algum trabalho adicional para criação de memória e por isso podem ser necessárias doses de reforço para atingir o nível de proteção ideal.

Vacinas Atenuadas

Este é o tipo de vacina que costuma causar polêmica porque nesta categoria a vacina é feita a partir de vírus ou bactérias vivas, mas que foram tratadas em laboratório para não terem força para desenvolverem a doença. É o caso mais próximo do que Jenner fez na Inglaterra no fim do sec. XVIII.

Essas vacinas podem apresentar algum tipo de reação em que as recebe por se tratarem de microrganismos vivos, mas pessoas saudáveis não têm dificuldades em lidar com uma leve infecção e em poucos dias estão livres dos sintomas e absolutamente protegidas contra a doença em sua forma grave. Essas vacinas também podem necessitar de reforços ao longo da vida para garantir sua eficácia.

Independentemente do tipo de vacina, todas elas são seguras, foram testas ao longo de décadas e os riscos associados são mínimos se comparados ao benefício que trazem para a saúde individual e coletiva. Se hoje a expetativa de vida do brasileiro é maior do que 70 anos, é por conta de atitudes como a vacinação, higiene e hábitos saudáveis de vida que conseguimos isso. Não se deixe influenciar por boatos e falácias.

Quais são as vacinas que preciso dar aos meus filhos?

O governo brasileiro é referência mundial quando falamos de vacinação em massa e gratuita da população e o Ministério da Saúde tem um esquema vacinal específico para cada subpopulação, faixa etária, condição de saúde, enfim.