IARP – Instituto de Alergia de Ribeirao Preto
Antes de qualquer coisa, precisamos deixar claro que as alergias alimentares (como todas as alergias) são causadas por reações desmedidas do sistema imune quando o corpo é exposto a uma substância que ele reconhece como “estranha” ou “perigosa”. Este é um mecanismo complexo que envolve vários sinalizadores internos e que pode causar reações as mais variadas, indo de um simples incômodo (como uma coceira) até quadros graves e potencialmente fatais (anafilaxia).
Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa e o tipo de reação tem relação com a sensibilidade individual. No caso específico das alergias alimentares são mais comuns os sintomas relacionados ao sistema digestivo (dor de estômago, cólicas, diarreia, náusea e vômitos), mas não são raras as reações que envolvem a pele (urticária, coceira e dermatite) e o sistema respiratório (congestão nasal, dificuldade em respirar, chiado no peito, tosse e coriza).
Apesar de estes sintomas parecerem leves, não podemos deixar de comentar que há casos graves de reações alérgicas a alimentos em que pode acontecer anafilaxia. Neste tipo de reação podem ocorrer, além dos sintomas descritos anteriormente, inchaço da garganta e língua, queda abrupta da pressão, confusão mental e até morte.
Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), cerca de 7% das crianças em idade pré-escolar e 2-3% dos adultos[1] possuem algum tipo de alergia alimentar. Entretanto, um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia[2], envolvendo mais de nove mil crianças encontrou um fato interessante: a maioria dos casos de suposta reação alérgica alimentar relatados pelos pais e cuidadores não se confirmou como uma alergia real, o que faz com que alguns pais ofereçam uma dieta com restrição de algum tipo de alimento sem necessidade, então CUIDADO! Essa atitude pode não ser a mais adequada especialmente nos primeiros anos de vida da criança por causa do desenvolvimento físico e intelectual. Sendo assim, é necessária a realização testes para a determinação da existência de um quadro alérgico.
[1]http://www.asbai.org.br/secao.asp?s=81&id=306
[2]Prevalence of food allergy in infants and pre-schoolersin Brazil.L.C.P. Gonc¸alves∗, T.C.P. Guimarães, R.M. Silva, M.F.A. Cheik, A.C. de Ramos Nápolis, G. Barbosa e Silva, G.R.S. Segundo
Em teoria, qualquer alimento pode causar alergia, porque na verdade não existem “alimentos que causam alergia” e sim, pessoas alérgicas a certas proteínas presentes em alimentos específicos. Isso significa que um novo tipo de alergia pode surgir a qualquer momento em que seja diagnosticada uma pessoa no mundo que apresente sensibilidade a algo que nunca havia sido descrito. Entretanto, estudos populacionais nos auxiliam na definição das categorias de alimentos mais comumente associados a quadros alérgicos: Leite de vaca (caseína, não a lactose), amendoim e nozes, crustáceos (camarão e outros frutos do mar), ovos, soja e trigo.
Se você é pai, mãe ou cuidador de uma criança que você suspeita ser acometida por algum tipo de alergia alimentar, já deve estar acostumado com essa terminologia, de qualquer forma, é sempre bom reforçar, então antes de qualquer coisa, vamos explicar alguns pontos importantes.
Uma característica marcante das reações de hipersensibilidade do tipo I (outro nome para alergias mediadas por IgE) é sua velocidade de ocorrência. Esse tipo de reação é a mais comum entre as alergias e os sintomas costumam aparecer rapidamente, com seus efeitos (urticária, vermelhão, coceira, e até anafilaxia) presentes em questão de minutos, entretanto, essa reação rápida só ocorre depois de uma primeira exposição do organismo ao alérgeno (sensibilização).
Diferentemente das alergias mediadas por IgE, as não mediadas tem uma velocidade de ocorrência bastante mais lenta, podendo levar horas para ser percebida, os sintomas costumam ser outros (vômitos, cólica e diarreia)e podem acontecer na primeira exposição, ou seja, são independentes de sensibilização.
Essa é a sigla para o nome de um anticorpo substância produzida por células de nosso sistema de defesa, o sistema imune. Sem entrarmos em muitos detalhes, a sigla significa imunoglobulina do tipo E e essa imunoglobulina tem o formato de um Y e tem uma função importante no combate a parasitas como as famosas lombrigas, ativando a migração de células de defesa. Além disso, quando pensamos nas alergias, este anticorpo encontra-se aumentado em pelo menos 50% das pessoas alérgicas.
Grosso modo, trata-se de um anticorpo, uma proteína com função de defesa produzida por um tipo especial de célula chamada célula B. Esta célula somente é capaz de produzir anticorpos se ela for estimulada por outro tipo celular (a célula TH2), que por sua vez é sensibilizada por uma célula chamada apresentadora de antígeno e assim o sistema funciona em cadeia, com dezenas de tipos celulares, centenas de moléculas sinalizadoras e uma rede muito complexa que a ciência ainda tenta compreender.
O que é importante saber sobre a IgE responsável pelas alergias alimentares é que este anticorpo surge quando um organismo é exposto a um antígeno, assim essa é uma resposta adquirida (ou adaptativa).
Como já falado, as reações mediadas por IgE são rápidas (em minutos) e somente acontecem quando o indivíduo já foi previamente sensibilizado pelo alérgeno e incluem como principais manifestações clínicas: urticária e angioedema, broncoespasmo, síndrome de alergia oral, cólicas, dor abdominal, diarreia, anafilaxia e sensação de morte iminente.
Já as reações tardias ou não mediadas por IgE se manifestam após horas e são: enteropatia por proteína, síndromes da enterocolite e protocolite induzidas por proteína alimentar (FPIES e FPIPS), dermatites.
O diagnóstico das alergias só pode ser realizado quando são avaliados diferentes fatores como o histórico familiar e do próprio paciente com relação aos sintomas apresentados quando da ingestão de um alimento, exames físicos (especialmente quando o suposto quadro alérgico está instalado), além de testes de sensibilidade cutânea a diferentes alérgenos conhecidos.
Assim, a determinação precisa do diagnóstico deve ser realizada por um médico especialista em alergias. Receitas caseiras e dicas de parentes e conhecidos podem ser muito perigosas porque cada caso deve ser investigado cuidadosamente a fim de definir o tratamento mais seguro e adequado para você.
A resposta para essa pergunta vai depender do que o paciente considera cura. Hoje sabemos que a esmagadora maioria das alergias alimentares da infância se resolvem com o tempo, então uma criança que apresenta alergia a ovos ou ao leite de vaca abaixo dos cinco anos de idade tem mais de 80% de chance de ter seu caso resolvido somente com o passar do tempo. Segundo este ponto de vista, essa alergia na grande maioria tem cura, mas independe de um tratamento farmacológico, por exemplo. Seria um caso de cura espontânea (adquiriu tolerância).
Já quando o paciente apresenta um tipo de alergia passível de ser tratado com um protocolo de dessensibilização, ele pode vir a ter o que se chama em medicina de cura funcional. Neste caso a alergia pode ser tão bem controlada pelo tratamento que é como se o paciente estivesse curado de fato, mas na verdade o que ocorre é um controle de alto nível em que os sintomas desaparecem, mas podem voltar se o esquema terapêutico for interrompido ou mal executado.
Apesar dos exemplos acima, infelizmente ainda não podemos dizer que as alergias alimentares têm cura. Há estratégias de controle e tratamento, mas com o conhecimento atual da ciência médica a cura definitiva ainda está no campo da teoria, dos laboratórios de pesquisa e na expectativa de médicos e pacientes.
Independentemente disso, o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento das alergias alimentares precisam ser realizados em conjunto, o paciente, a família e um médico com formação específica em alergias para garantir a qualidade de vida do paciente, com um mínimo necessário e suficiente de restrições alimentares.